Doação
de Óvulos
Não
faz muito tempo, a infertilidade nas pacientes com insuficiência
ovariana do tipo hipogonadismo hipergonadotrófico
era insolúvel. Atualmente, a doação
de oócitos constitui-se no método de reprodução
assistida indicado para resolver essa problemática.
A primeira gestação derivada de uma doação
de oócitos ocorreu numa paciente com insuficiência
ovariana precoce (IOP) que infelizmente resultou em aborto
(Trounson e cols., 1983). Entretanto, alguns meses mais
tarde, Lutjen e cols. (1984) relataram uma gravidez com
nascimento de uma criança proveniente de oócito
doado anonimamente. Posteriormente, vários autores
referiram sucesso com o emprego dessa metodologia (Asch
e cols., 1987; Feichtinger e Kemeter, 1985; Rosenwaks e
cols., 1986). A doação de oócitos não
é apenas indicada para o tratamento da menopausa
precoce, disgenesias ovarianas ou após ooforectomias
bilaterais, mas também nas situações
de presença da função ovariana, porém
com repetidas falhas após estimulação
ovariana nos programas de fertilização "in
vitro" (FIV). Nessa população, o emprego
da doação de oócitos acarreta um aumento
dos índices de parto por ciclo de 0.8% para 16% (Burton
e cols., 1993). Além disso, estará também
aconselhada nos casos de risco de doença genética,
como na Coréia de Huntington, etc. Recentemente,
houve uma ampliação das indicações
da doação de óvulos nas pacientes com
menopausa fisiológica, especialmente na faixa entre
os 50 e 60 anos. Paulson e Sauer (1994) defendem esse procedimento
nas pacientes que desejam engravidar, apesar de estarem
em menopausa fisiológica, desde que se enquadrem
como normais após rígidos exames médicos.
Entre uma das mais freqüentes indicações
da doação de oócitos está a
IOP que é definida pelo desaparecimento dos ciclos
menstruais antes da idade dos 40 anos (Jaffe, 1986). A IOP
ocorre em aproximadamente 1% das mulheres (Oskarsson e cols.,
1990). Em geral, essas pacientes apresentam os clássicos
sintomas de amenorréia, gonadotrofinas elevadas e
diminuição dos níveis plasmáticos
de estrógenos. Coulam (1982) acredita que aproximadamente
20% das mulheres com IOP e cariótipo normal apresentam
reação autoimune. Essas pacientes mostrariam
elevados títulos de anticorpos antiovário,
antitireóide e anti-suprarenal. Mignot e cols. (1989)
estudaram a presença de anticorpos em pacientes com
IOP e apesar de não identificarem um fator imunológico
específico, verificaram que 92% das pacientes apresentaram
autoanticorpos. Rebar e cols. (1982) relataram que a IOP
não é permanente num limitado número
de casos, como evidenciou pelo retorno espontâneo
dos ciclos menstruais e até de gestações.
Esse fato ocorreu nas pacientes que apresentaram níveis
de estradiol acima do habitual para a menopausa e valores
de LH superiores aos do FSH. Por outro lado, a perda da
função ovariana em razão da ablação
cirúrgica dos ovários, endometriose pélvica
severa ou mesmo de uma infecção pélvica
grave, pode desenvolver quadro clínico e laboratorial
igual ao da IOP. A doação de oócitos
constitui-se na situação clínica única
em que a gestação é obtida na ausência
de corpo lúteo e onde importantes informações
podem ser colhidas sobre o fenômeno de sincronia entre
o endométrio e embrião, ou melhor, do processo
inicial de implantação embrionária.
Escolha das doadoras
Habitualmente, nosso serviço obtém oócitos
doados entre as pacientes participantes dos programas de
FIV ou, raramente daquelas que realizam cirurgia para laqueadura
tubária. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina
estipulou normas éticas para orientar a organização
de programas de doação de oócitos.
A doação nunca terá caráter
lucrativo ou comercial, além disso os doadores não
devem conhecer a identidade dos receptores e vice-versa.
Obrigatoriamente, será mantido o sigilo sobre a identidade
dos doadores de gametas e pré-embriões, assim
como dos receptores. Em situações especiais,
as informações sobre doadores, por motivação
médica, podem ser fornecidas exclusivamente para
médicos, resguardando-se a identidade civil do doador.
Por outro lado, as clínicas, centros ou serviços
que empregam a doação devem manter, de forma
permanente, um registro de dados clínicos de caráter
geral, com as características fenotípicas
e uma amostra de material celular dos doadores. Na região
de localização da unidade, o registro das
gestações evitará que um doador tenha
produzido mais que duas gestações de sexos
diferentes, numa àrea de um milhão de habitantes.
Além disso, a escolha dos doadores é de responsabilidade
da unidade que dentro do possível deverá garantir
que o doador tenha a maior semelhança fenotípica
e imunológica e a máxima possibilidade de
compatibilidade com a receptora. Na situação
de um casal infértil doador, este deverá assinar
um consentimento informado autorizando a doação
de óvulos. Do ponto de vista médico, as doadoras
devem apresentar uma idade de 35 anos, ausência de
antecedentes de doenças genéticas na família
e testes laboratoriais negativos para AIDS, sífilis
e hepatite tipo B. Apesar da doadora de oócitos no
momento do procedimento apresentar uma sorologia negativa
para AIDS, teoricamente existe um risco de posterior soro
conversão. Nessa linha de pensamento, destaca-se
um estudo prospectivo multicêntrico (Moomjy e cols.,
1995) realizado entre doadores de sangue com sorologia negativa
no momento da transfusão, em que se observou que
de 11532 pacientes que foram submetidos a cirurgias cardiovasculares
e receberam 120213 transfusões, apenas dois indivíduos
mostraram sorologia posterior para AIDS positiva (estimativa
de risco : 1/60000), fato relacionado com a soroconversão
dos doadores. Além disso, a chance de inoculação
do vírus da AIDS através da transferência
de um embrião seria sensivelmente menor do que a
ocasionada por um frasco de sangue doado, sendo na pior
das hipóteses de 1 caso por 60000 transferências
embrionárias, isto por analogia com a transfusão
de sangue. Entretanto, deve-se destacar que até hoje
não há relatos da transmissão do vírus
da AIDS durante o processo de doação de óvulos
por doadoras com sorologia negativa. No futuro, a caracterização
do antígeno pela técnica de PCR poderia reduzir
o já teórico risco de transmissão de
AIDS por doação de óvulos. Habitualmente,
existem poucas pessoas com interesse em doar óvulos,
por isso outras fontes de doação têm
sido estudadas. Cha e cols. (1991) conseguiram uma gestação
após a maturação de oócitos
obtidos do ovário de paciente submetida `a cirurgia
ginecológica. Recentemente, Trounson e cols (1994)
relataram a maturação e fertilização
de oócitos obtidos por aspiração folicular
em ciclos não estimulados de pacientes com ovários
micropolicísticos. Usando um sistema de aspiração
modificado e meio de cultura com soro fetal, gonadotrofina
menopausal humana (0.075 UI), gonadotrofina coriônica
humana (0.5 UI) e estradiol (1mg/ml), obtiveram após
48 horas de cultura, maturação em 81% dos
oócitos e fertilização normal em 34%.
Um total de 13 pacientes foram tratadas com a obtenção
de 1 gestação.
Sincronização doadora-receptora
Os primeiros esquemas de sincronização entre
doadora-receptora empregavam os esteróides de forma
cíclica e fixa, com um aumento periódico do
estradiol na tentativa de imitar os incrementos habituais
da fase folicular de um ciclo menstrual (Lutjen e cols.,
1984). Dessa forma, após o sangramento menstrual,
iniciava-se o valerianato de estradiol (VE) na dose diária
de 1mg por dia, com aumentos progressivos até 6mg
na metade do ciclo. A progesterona sempre era introduzida
no 15º dia na forma de supositório vaginal (dia
15 : 25mg, dia 16 : 50 mg e do dia 17 em diante : 100mg)
até o 26º dia do ciclo. Na metade da fase progestacional
era freqüente a indicação da biópsia
endometrial para definir um padrão histológico
endometrial ideal, caso contrário, novos ajustes
de medicação eram realizados. Em seguida,
suspendia-se os esteróides, fato que acarretava o
fluxo menstrual e tinha início um novo ciclo. A paciente
permanecia com ciclos de reposição hormonal
até que a doação de oócito fosse
viável. Em geral, a sincronização entre
doadora e receptora deveria ocorrer com a transferência
de embriões entre o 15º e o 20º dia do
ciclo artificial da receptora (ideal entre o 17º e
o 20º dia). Caso contrário os embriões
seriam congelados e transferidos num ciclo subsequente.
Atualmente, os modelos de administração de
esteróides tentam solucionar os problemas de sincronia
entre doadora e receptora pelo prolongamento da fase folicular
da receptora. Inicialmente, Serhal e Craft (1987) confirmaram
que a receptividade endometrial para a implantação
embrionária não seria dependente da dose de
estradiol ou progesterona. O emprego de estradiol por duas
a quatro semanas e a introdução da progesterona
no dia anterior ao da coleta dos oócitos seria suficiente
para a obtenção de bons resultados. Em microscopia
comum é freqüente a identificação
de transformações secretoras no endométrio
após 3 a 7 dias de uso da progesterona. Nessa época,
a microscopia eletrônica identifica transformações
nas células endometriais típicas da receptividade
endometrial (Murphy e cols., 1987). Atualmente, acredita-se
que a avaliação imunohistoquímica do
endométrio (identificação das proteínas
PP14 e 24K) marcaria com maior precisão o potencial
para implantação embrionária do que
o habitual estudo histológico endometrial (Rizk e
cols., 1992). Devroey e cols. (1989a) também sugerem
que um programa eficiente de criocongelamento de embriões
poderia solucionar os problemas de sincronização
entre doadora e receptora. Os embriões provenientes
dos oócitos da doadora seriam congelados e posteriormente
descongelados em época apropriada do ciclo da receptora.
O emprego de ciclos menstruais artificiais para a transferência
de embriões derivados de oócitos doados permitiu
o estudo da chamada "janela" endometrial de receptividade.
Habitualmente, nos mamíferos essa janela estaria
aberta por poucas horas (Wu e Chang, 1972), entretanto,
nos primatas esse período eleva-se para até
3 dias (Hodgen, 1983). Do ponto de vista prático,
as gestações em pacientes com função
ovariana ausente resultariam da transferência de embriões
para um endométrio já submetido à ação
da progesterona por 1 a 4 dias, desde que previamente desenvolvido
pelos estrógenos. Inicialmente, no Centro de Reprodução
Humana da Fundação Maternidade Sinhá
Junqueira utilizou-se de um modelo semiprogramado, denominado
esquema de Viena (pílula + citrato clomifene + gonadotrofina
menopausal humana + dexametasona) para a estimulação
do ovário da doadora e o processo de sincronização
doadora-receptora obedecia os seguintes passos (Figura 8.1)
: 1. Quando a doadora inicia o uso de anticoncepcional oral,
ou seja, no 1º dia da menstruação, a
receptora começa o VE na dose de 2mg por dia. 2.
A doadora termina o anticoncepcional oral sempre numa 2ª
feira, nessa ocasião a receptora aumenta a dose de
VE para 4 mg por dia 3. No 1º dia de estimulação
ovariana da doadora, 5 dias após o término
da pílula eleva-se a dose de VE na receptora para
6mg por dia. 4. O ponto seguinte de acoplamento é
o momento em que a ultra-sonografia sinaliza para a administração
de hCG na doadora, nessa ocasião inicia-se o uso
de progesterona na receptora na dose de 50mg por dia, diminuindo-se
o VE para 4 mg diários. 5. No dia da transferência
embrionária eleva-se a dose de progesterona para
100mg/dia até a confirmação ou não
da gravidez. A transferência embrionária é
realizada no 4º dia de uso da progesterona (Tabela
8.1).
Tabela 8.1 - Pontos importantes no processo de sincronização
entre doadora
e receptora com qualquer esquema de estimulação
ovariana
Pontos Doadora Receptora
Dia da hCG 10.000 UI VE 4mg + P4 50mg
Período da transferência embrionária
48 horas 56 horas
Dia da transferência VE 4mg + P4 100mg
Gestação confirmada VE 8mg + P4 100mg
VE = valerianato de estradiol P4 = progesterona
No caso da receptora ainda possuir função
ovariana são usados os análogos de GnRH para
o bloqueio da atividade hormonal ovariana. Os principais
pontos de acoplamento seriam os seguintes : 1. Quando a
doadora inicia o uso de anticoncepcional oral, ou seja,
no 1º dia da menstruação, a receptora
começa o análogo (acetato de leuprolide na
dose de 1 mg por dia). Após 15 dias, verifica-se
a presença do bloqueio na receptora pela dosagem
de estradiol plasmático ( 50 pg por ml) quando se
inicia o VE na dose de 2 mg; 2. A doadora termina o anticoncepcional
oral sempre numa 2º feira, nessa ocasião, a
receptora aumenta o VE para 4 mg por dia; 3- No 1º
dia de estimulação ovariana da doadora, eleva-se
a dose de VE na receptora para 6mg por dia. A receptora
pára de utilizar o análogo do GnRH no dia
em que se administra a hCG para a doadora. Os passos finais
são semelhantes aos descritos acima (Figura 8.2).
Atualmente, no Centro de Reprodução Humana
da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira
usa-se preferencialmente um esquema de estimulação
da ovulação para as doadoras composto de um
bloqueio ovariano prévio com análogo de GnRH
(acetato de leuprolide) seguido de FSH-HP altamente purificado.
Nessa situação, a sincronização
é simplesmente realizada com a manutenção
de uma fase folicular mínima na receptora de 14 dias
e máximo de 35 dias (doses de VE variáveis
de 2mg a 6mg, adaptadas em função da avaliação
ultra-sonográfica da espessura e do padrão
endometrial) (Figura 8.3).
A manutenção da ação estrogênica
por até 5 semanas não afeta os resultados
de um programa de doação de oócitos
(Yaron e cols., 1995). Remohi e cols. (1995) demonstraram
que o conceito de fase folicular prolongada pode ser mantida
até 15 semanas sem interferir nas taxas de gestação,
implantação ou aborto. Entretanto, descrevem
uma alta incidência (maior que 44%) de sangramento
após 9 semanas de manutenção isolada
da ação estrogênica. Habitualmente,
essa conduta é fácil nas receptoras com ausência
de função ovariana, entretanto, naquelas com
função ovariana presente, pode-se usar análogos
de GnRH para bloquear a função ovariana, seguindo-se
a administração de VE segundo a orientação
acima descrita. O uso prolongado de VE pode resultar escapes
que nem sempre são fáceis de serem corrigidos
com um aumento na dose de VE. A administração
de progesterona inicia-se no dia da administração
de hCG (50 mg/dia) ou no dia da coleta de oócitos
pela doadora, porém na dose de 100mg por dia (Cano
e cols., 1995). Comumente, a hCG é detectada 12 dias
após a transferência embrionária, sendo
que a suplementação com esteróides
é mantida até que o tecido trofoblástico
esteja apto para manter a gravidez. Acredita-se que a placenta
possa assumir a produção de progesterona ao
redor da 8ª semana de gestação (Csapo
e cols., 1974). Dessa forma, nas pacientes com ausência
de função ovariana, teoricamente a suplementação
com esteróides deveria durar até 6 semanas
após a transferência embrionária (Cameron
e cols., 1989). Entretanto, existem divergências quanto
ao tempo ideal para interromper o uso de estradiol e progesterona.
Alguns autores preconizam a manutenção de
doses fixas de esteróides por um tempo determinado,
contudo, outros baseiam-se nas dosagens plasmáticas
para o acerto final (Feichtinger e Kemeter, 1985). Em geral,
o estradiol e a progesterona são interrompidos em
média com 12 semanas. Nossa conduta é elevar
o VE para 8mg por dia em caso de gravidez e manter a substituição
hormonal até um mínimo de 12 semanas e máximo
de 15 semanas. As doses de reposição hormonal
baseiam-se nas taxas circulantes de esteróides avaliadas
semanalmente ou quinzenalmente, procurando-se atingir os
níveis de estradiol 2000 pg/ml e progesterona 50ng/ml
(Formigli e cols., 1989).
Resultados com a doação de oócitos
Em geral, os resultados obtidos nos programas de doação
de óvulos são na maioria das vezes superiores
aos obtidos com FIV convencional. Isso pode ser observado
nos relatos de Balmaceda e cols. (1992) que referem uma
taxa de gravidez de 57.9% após transferência
uterina ou de Formigli e cols. (1989) com uma taxa de 53.8%
após a doação de oócitos pela
transferência de gametas intratubária (GIFT).
Moomjy e cols. (1995) relataram índices de gestação
por transferência de 54% de um total de 240 ciclos
do programa de doação de oócitos. Ao
mesmo tempo, descreveram uma taxa de gestação
múltipla de 46%, extremamente elevada diante da filosofia
atual de controle da incidência de multiparidade.
O programa de doação de oócitos do
CRH da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira
acompanha os resultados gerais da literatura, porém
com uma taxa de gestação múltipla aceitável
(Tabela 8.2). Sauer e cols. (1995) analisaram a evolução
de uma série de 36 pacientes receptoras com idade
média de 52 anos (variando de 50 a 59 anos). Um total
de 22 gestações (48.9%) foram obtidas, sendo
que 17 tornaram-se viáveis (37.8%). A taxa de implantação
embrionária foi de 20.6%, e a incidência de
prenhez múltipla de 52.9%. Todas os partos ocorreram
após 32 semanas (idade média para gestação
única foi de 38.4 ± 1.9 semanas, para os gêmeos
de 36.3 ± 1.4, para os triplos de 32 semanas). As
complicações mais freqüentes foram a
hipertensão gestacional (7 casos), o trabalho de
parto prematuro (3 casos), e a diabete gestacional (1 caso).
Borini e cols. (1995a) analisaram 34 pacientes com idade
entre 50 e 62 anos que foram submetidas a um programa de
doação de óvulos. Um total de 61 ciclos
foram executados, obtendo-se uma taxa de gestação
de 32.7% por transferência e de 52.9% por paciente.
A taxa de implantação foi de 18%, com um índice
de aborto de 5.5%. A idade média das gestações
foi de 35 semanas, sendo que destas foram 16 únicas,
uma gemelar e uma tripla. Na ocasião da publicação
do trabalho já tinham ocorrido 12 partos e estavam
em evolução 5 gestações. O peso
médio dos recém-nascidos foi de 2.430g (variação
de 900g a 3500g), não ocorrendo mortes fetais. Por
outro lado, no grupo das doadoras com idade média
de 30 anos (variação de 22 a 35 anos) ocorreram
51 induções de ovulação com
taxa de gestação de 38.6%, de implantação
de 16.5% e de aborto de 5.8%. Não se observaram diferenças
significativas entre esses parâmetros, quando se compararam
doadoras versus receptoras. Borini e cols. (1995b) relataram
uma taxa de gestação superior nas pacientes
acima de 40 anos que não apresentavam mais a função
ovariana (30.8% por transferência) quando comparadas
com as de 40 anos, porém com função
ovariana presente (10.4% por transferência). Entretanto,
quando as pacientes acima de 40 anos foram bloqueadas previamente
por um período de 2 a 3 meses com análogos
de GnRH antes da reposição hormonal, as taxas
de gestação ficaram similares (30.6%) às
obtidas nas pacientes sem função ovariana.
Teoricamente, algumas disfunções endometriais
causadas por uma produção inadequada de estrógenos
e/ou progesterona ou mesmo por uma inatividade dos pinopódos
poderiam ser corrigidas por um bloqueio prolongado prévio
antes do início da reposição hormonal.
Check e cols. (1995) verificaram também uma maior
taxa de gestação (46.3% por transferência)
nas pacientes com função ovariana ausente,
em comparação com aquelas pacientes com função
presente (20.4% por transferência). Uma justificativa
para tal diferença poderia em parte ser explicada
pela seleção das pacientes, desde que o grupo
das pacientes com função ovariana seja mais
heterogêneo e inclui pacientes com falhas prévias
em FIV, infertilidade inexplicada ou fatores imunológicos
associados. Berkowitz e cols. (1990) estudaram a evolução
da gestação de 799 pacientes com idade acima
de 35 anos, verificando que o prognóstico neonatal
não foi diferente ao do grupo de pacientes abaixo
de 35 anos. Entretanto, ocorreu um significativo aumento
das complicações anteparto (doença
hipertensiva específica da gravidez, diabete, placenta
prévia e descolamento prematura de placenta). Apesar
disto, não seria prudente estabelecer um limite etário
para contra-indicar a gestação nas pacientes
em menopausa fisiológica. Qualquer medida restritiva
deveria se basear na análise de cada caso em particular
após a identificação de problemas psicológicos
ou de saúde (Moomjy e cols., 1995). O Registro da
Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva e da Sociedade
de Tecnologia para Reprodução Assistida nos
Estados Unidos (1995) informou que 35 centros executaram
o programa de doação de óvulos no ano
de 1993. Um total de 2766 ciclos foram executados com 2167
doações anônimas e 599 com doadores
conhecidos, totalizando 2446 ciclos com transferência
de embriões. Nos ciclos de doação anônima
relataram 692 gestações e 554 partos, obtendo-se
taxa de parto de 28.7% por transferência. A incidência
de gestação múltipla foi de 40.7%.
Nos ciclos com doadores conhecidos, referiram 227 gestações
e 162 partos, totalizando uma taxa de parto de 31.6% por
transferência. A incidência de gestação
múltipla foi de 39.4%. Os programas de doação
de oócitos nas pacientes com IOP empregando-se FIV
com transferência de embriões para o útero
ou trompa apresentaram taxas de gestações
clínicas maiores que nas pacientes com função
ovariana presente submetidas às mesmas técnicas
para correção de sua infertilidade (Paulson
e cols., 1990). Desse fato, especula-se que a estimulação
do endométrio ou do epitélio tubário
pela hiperestimulação ovariana poderia funcionar
como um fator negativo nas chances de obtenção
de uma gravidez. Por outro lado, discute-se o local ideal
para a transferência do embrião obtido por
doação de oócitos. Alguns autores referem
que a transferência de embriões gerados "in
vitro" para as trompas produziria altos índices
de implantação quando comparada com a transferência
diretamente para o útero (Devroey e cols., 1989b,
Yovich e cols., 1987). Os principais argumentos estariam
ligados às melhores condições de desenvolvimento
embrionário no meio tubário, assim como na
perfeita cronologia de entrada dos embriões na cavidade
uterina. Entretanto, apesar dos argumentos teóricos
terem base fisiológica, os dados que suportam a superioridade
da transferência tubária são retrospectivos,
não randomizados e sem análise de outras variáveis
fundamentais como a idade das pacientes e a qualidade dos
embriões. Balmaceda e cols (1992) confirmam altos
índices de gravidez em programa de doação
de oócitos e relatam num estudo prospectivo que nos
ciclos de reposição hormonal com uniforme
estimulação do endométrio, não
há vantagem na transferência de embriões
para a trompa em relação ao útero.
Assim sendo, obtiveram 23 (54.7%) gestações
num total de 42 pacientes. No grupo com transferência
uterina, 12 (54.5%) pacientes engravidaram num total de
22, enquanto que no de transferência tubária
foram obtidas 11 (57.9%) gestações entre 20
pacientes. Além disso, referem que a qualidade do
embrião e a receptividade endometrial seriam variáveis
de maior importância do que a forma de transferência
do embrião para a cavidade uterina. O controle da
reposição hormonal na receptora é um
aspecto citado como fundamental. Alguns autores procuram
valorizar o ajuste prévio das doses ideais de estradiol
e progesterona, para posteriormente usa-las no ciclo de
transferência embrionária, inclusive com uma
obrigatória avaliação hormonal através
de biópsias de endométrio. Franco Jr. e cols.
(1993) dispensaram qualquer avaliação laboratorial
ou histológica prévia, assim como durante
o ciclo de transferência embrionária. Por outro
lado, apenas a análise ultra-sonográfica da
espessura ( 6mm) foi a base para o acerto das doses hormonais
de reposição. Os resultados obtidos suportam
essa conduta. Bustillo e cols. (1995) também observaram
que nenhuma gestação foi obtida quando a espessura
endometrial era < 5mm, assim como na situação
em que o índice de pulsatilidade da artéria
uterina era menor que 3.4. Por outro lado, desde que a janela
de receptividade endometrial em humanos está entre
3 e 5 dias de exposição do endométrio
para a progesterona (Meldrum e cols., 1989) é comum
fixar-se o 4º dia como o momento da transferência
embrionária para a receptora (Franco Jr. e cols.,
1993). O modelo da doação de óvulos
permite o estudo sobre o declínio da fertilidade
da mulher com a idade. A questão fisiológica
fundamental seria identificar os fatores causais : o óvulo,
o útero ou ambos. Navot e cols. (1994) acreditam
que a perda da fertilidade na mulher acima dos 40 anos está
intimamente ligada a uma pobre qualidade dos oócitos.
Da mesma forma, Sauer e cols. (1992) não encontraram
diferenças entre as taxas de gestação
obtidas após doação de oócitos
em mulheres com 40 anos (34.5% de gestações
por transferência) versus um grupo de mulheres controle
com < 40 anos (32.6% de gestações por transferência).
Cano e cols. (1995) acreditam que a idade aumenta a perda
das gestações após o processo de implantação.
Tal fato, ocorreria por um retardo na síntese de
esteróides e que esse mecânismo está
intimamente ligado ao envelhecimento uterino. Em conclusão,
o programa de doação de oócitos é
uma solução segura na correção
da infertilidade na paciente com falência oocitária
de qualquer natureza.
Tabela 8.2 - Resultados gerais do programa de doação
de oócitos em 1995
Pacientes 39
Idade 5.7± 6.2
Número de ciclos 49
Número de oócitos doados 4.5 ± 2.0
Taxa de fertilização 79.2
Número médio de embriões transferidos
3.3±1.57
Taxa de gestação clínica por ciclo
36.7 %
Taxa de gestação clínica por paciente
46.15%
Taxa de implantação embrionária 13%
Taxa de aborto 11%
Gestações em evolução 6
Partos 10
Taxa de gestação múltipla 25 %
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